28 de janeiro de 2017

A INFLUÊNCIA DA GRANA NA FAMÍLIA PLUMB

Família, dinheiro e brigas — talvez estas três palavras sejam a chave da história escrita por Cynthia D’Aprix Sweeney. A Grana é sobre a família Plumb, de quatro irmãos: Leo, Melody, Jack e Beatrice. Há um bom tempo, o pai deles resolveu criar uma poupança na qual depositou o resultado de seu trabalho e investimento para que, apenas quando Melody completasse 40 anos, todos eles pudessem ter acesso ao dinheiro que seria como uma renda extra naquele determinado momento da vida. Antes disso, nenhum deles usaria a grana, a não ser que a mãe precisasse em alguma emergência.


Logo no prólogo conhecemos Leo Plumb, o motor inicial dessa história. Casado, mas insatisfeito com a esposa; irmão mais velho dos quatro, porém indiferente em relação à família. Impaciente e entediado na festa do casamento de seu primo, ele acaba se envolvendo com uma garçonete e os dois deixam a festa em seu carro, fazendo o possível para não serem vistos. É nessa fuga que sofrem um grave acidente, o qual foi um empurrão para os problemas que vêm a seguir.

Sem dinheiro para lidar com as consequências do acidente — que não incluem somente ele, mas também a garçonete —, Leo toma a decisão, com a ajuda da mãe, de usar o dinheiro guardado há tanto tempo e prestes a ser dividido entre os irmãos. Isso só pode dar confusão, principalmente porque, no momento em questão, essa grana seria de grande utilidade para Melody, Jack e Beatrice.


A sinopse do livro havia me deixado muito interessada em ler e descobrir o impacto que o dinheiro poderia causar nas relações familiares (e isto fica bem claro durante a leitura), no entanto, acredito que minhas expectativas estavam altas. A Grana tem uma boa história, mas faltou alguma coisa para mim. Em certas partes me peguei confusa quanto ao momento de alguns acontecimentos e quanto aos pontos de vista diferentes. Este último pode ser (e foi) um grande aliado para nós compreendermos a história de vários ângulos, contudo, com o corte do fim do capítulo, o acontecimento sob o ponto de vista de personagem X só seria retomado capítulos depois, ou através do ponto de vista de outra pessoa.


Por outro lado, a escrita da autora em si é bem tranquila e flui rapidamente, então, se algo me desmotivou em algum momento, com certeza não foi a forma de escrever a história — mesmo que estejamos falando de sérios problemas de família, tudo é narrado com leveza. É possível também conhecer quem são os Plumb, como é a relação deles entre si e com outros, de forma realista, pois eles são apresentados sem máscaras para nós, leitores. Apesar de, no início, sentirmos distância entre eles, um ponto positivo é vermos como o que aconteceu com Leo pode fazer com que os irmãos se unam. É uma pena que eu não tenha conseguido uma conexão forte com os personagens a ponto de sentir falta deles quando o livro acabou.


Quando escolhi A Grana, havia apenas lido a sinopse e me interessado bastante. Então, quando vi essa capa maravilhosa, não vou mentir: fiquei babando. A capa da versão americana também é exatamente essa, e que bom que a Intrínseca a manteve, pois é linda assim como toda a diagramação do livro, que é muito bem trabalhada. Como o livro divide opiniões, é válido indicá-lo para todos que se interessam pelo tema e/ou ficaram curiosos em como a família vai resolver essa situação inusitada.

Título: A Grana
Título original: The Nest
Autora: Cynthia D'Aprix Sweeney
Páginas: 335

5 de janeiro de 2017

OS PERIGOS DA INTERNET EM SOCIAL KILLERS

Desde muito cedo, o ambiente policial sempre me fascinou. Séries, como CSI NY, e livros, a exemplo de Sherlock, me renderam ótimas lembranças da infância. Quando a Darkside anunciou que lançaria Social Killers, a premissa logo me chamou atenção: fatos verídicos decritos por dois policiais relatando histórias de serial killers que usavam a internet para aproximar das suas vítimas e cometer crimes. Dessa forma, conhecemos os socialkillers.



De uma forma concisa, mas muito bem detalhada, os dois autores nos levam a repensar os limites da rede e como utilizamos essa ferramenta, inclusive nesse momento. A forma como são relatados os casos é fantástica: com uma preocupação perene nos leitores com relação a interpretação do conteúdo, somos conduzidos a uma narrativa fluída, como se estivéssemos em frente um do outro, ouvindo instigantes casos policiais.


O livro, classificado para maiores de idade, demonstra toda a carga que a obra carrega. São casos que lemos e pensamos duas vezes na afirmativa "casos verídicos". Psicopatas, transtornos mentais, mortes insanas e mentes qualificadas para matar são algumas das cargas que somos levados a observar minuciosamente, além de ter um estômago preparado para imaginações à la CSI.

A preocupação com o leitor foi algo que me deixou surpreendido. A cada caso, lemos uma reflexão feita pelos autores para nos mostrar onde, como e com quem utilizamos a internet e os meios de comunicação. Repensando, aprendemos que estamos imersos num universo que não é possível acreditar em tudo e em todos que estão por trás de uma simples tela. O perigo está mais próximo do que se imagina. É real.

A insanidade, bem mais sombria do que esperava, pode ser encontrada nos relatos. Problemas psicológicos e distúrbios sérios são peças fundamentais na "montagem" desses planos suicidas. É preciso ter estômago firme para ler o desfecho que muitas vítimas levam por causa de uma troca de mensagens. No fim do livro, reiterando o caráter informacional e educador, há ensaios de Slate e Parker sobre como foi buscar esses casos e a importância de levar essas informações a outras pessoas, dicas de como se proteger, números para procurar ajuda, alertas e muita empatia. Tudo englobado num estilo "Questions&Answers" bem bacana, como se estivéssemos conversando com os dois numa delegacia nesse exato momento.


Social Killers foi uma das baitas surpresas, se não a melhor leitura, do ano de 2016. Aliado ao conteúdo, a Darkside presenteia os leitores com uma edição belíssima: capa dura, papel especial, diagramação incomparável e um cuidado que só a caveirinha sabe fazer. RJ Parker e JJ Slate ousaram e escreveram uma obra prima que além de entreter os amantes de suspense e casos policiais, informa e alerta sobre os perigos da internet, além de difundir isso para a geração mais conectada de todos os tempos.

Título: Social Killers.
Autores: RJ Parker e JJ Slate.
Editora: Darkside Books.
Páginas: 272.


17 de novembro de 2016

DESBRAVANDO LUGARES ESCUROS COM GILLIAN FLYNN

Minha relação com Gillian Flynn é, definitivamente, conflituosa. Nos amamos com seu conto publicado na antologia de Contos Fantásticos (Arqueiro, 2015 - clique aqui para ler sobre) e brigamos em Garota Exemplar (Intrínseca). Mas, o tom obscuro das histórias de Gillian sempre me despertava o interesse, apesar das raivas. Lugares Escuros (Intrínseca, 2015) me transportou para um enredo que brincava com a mente a cada página.


Libby Day é uma sobrevivente aclamada pelos moradores de Kinnakee. Após presenciar a morte de sua mãe e de suas irmãs, a garotinha virou um ícone de superação para a pequena cidade que morava. Além disso, fez uma declaração que mudou drasticamente a sua vida: seu depoimento relatou que seu irmão de 15 anos seria o assassino. 

24 anos se passaram. Ben, seu irmão, está na cadeia e ela aprendeu a se virar sozinha. Depois de um crescimento como uma criança idolatrada pelo trágico acontecimento, o dinheiro e doações foram se acabando e Libby se encontra num estado crítico. Contatada pelo Kill Club, pessoas fascinadas por verídicos e trágicos casos policiais e seus mistérios que se reúnem para discussões, para relatar com detalhes as lembranças daquele dia, a personagem vê essa oportunidade como uma forma de ganhar dinheiro e se manter nesse momento.

"Seu irmão fazer isso é que não faz sentido. É um crime insano, grande parte dele não vai fazer sentido. Por isso as pessoas são tão obcecadas com esses assassinatos. Se fizessem algum sentido, não seriam realmente mistérios, certo?" (página 123).

Entretanto, ela não esperava que mentes soubessem tantas informações sobre sua vida. Detalhes, jornais antigos, comentários, entrevistas: sua vida documentada por pessoas sedentas em saber o que realmente aconteceu naquela noite. A partir disso, muitas coisas acontecem e nossa personagem vê o passado retomar diante dos seus olhos, assim como a verdade.


Com flashs do passado e do presente intercalados na narrativa (e na visão de diversos personagens) somos levados a acompanhar toda a situação e o que motivou essa chacina. Diversas vezes, desconstruímos tudo que pensamos sobre Libby e a família - e dessa forma, Flynn descreve sua maestria: nos surpreender com as revelações do enredo.

A escrita é fantástica. A forma como ela descreve, como retoma um fato e relaciona ao presente é um fato que engradece suas narrativas. Entretanto, os personagens conflituosos, desde Garota Exemplar, nunca me conquistaram. Em Lugares Escuros, a protagonista não conseguia me trazer para história por completo - pelos atos, pensamentos e atitudes.


Por isso, acabou tornando a minha leitura maçante. Empaquei MUITO nos primeiros capítulos e levei um bom tempo para encerrar o livro. Ainda sim, vale-se ressalvar um fato muito próprio da autora: a forma como ela traz o mundo real, com defeitos e qualidades, para suas narrativas. Admiro muito a capacidade de enquadrar tudo na escrita de uma forma tão singela. Os personagens tem hábitos narrados que se assemelham ao que fazemos diariamente - tornando a história mais "conectada" ao leitor. 

Apesar das ressalvas e de uma finalização surpreendente, além de estranha, Lugares Estranhos é um livro bom. Te fará repensar a adolescência, a sanidade e embarcar numa narrativa sombria, sangrenta, e psicodélica. Noites em claro serão perturbadas pela história de Libby Day, acredite. 

Título: Lugares Escuros.
Título Original: Dark Places.
Autora: Gillian Flynn.
Editora: Intrínseca (2015).
Páginas: 352.



13 de outubro de 2016

SOU UM PECULIAR

Se você tivesse que escolher uma peculiaridade, qual escolheria? Por quê?
A Editora Intrínseca, no penúltimo dia da Semana Peculiar, propôs essa pergunta aos parceiros. Ser um peculiar não é, definitivamente, uma tarefa fácil. A sabedoria de lidar com o poder, a fuga dos perigos, dos acólitos e a constante busca pela segurança são tarefas diárias para as crianças da série.


E quando pensei sobre o que é ser peculiar, uma coisa me veio à cabeça: 

Eles não escolheram sua peculiaridade. 
Eles não escolheram adentrar nesse mundo mágico e encantador. 
Eles foram escolhidos - por serem eles mesmos.

Enquanto tentava, arduamente, encontrar um poder que me fizesse ser um peculiar, uma postagem do Tiago Iorc apareceu no meu feed do facebook. Comentando sua ida aos cinemas brasileiros (o filme ainda está em cartaz, galera!) para ver o filme, o cantor brasileiro descreve uma sensação única com a história: 
"[...] Esse texto poderia também ser sobre a peculiaridade da genialidade de Tim Burton e seu talento de nos dragar para dentro de suas maluquices. No fim, talvez, seja simplesmente sobre abraço. Abrace sua peculiaridade, seja ela qual for. Desconfio que esteja aí a chave que permite cada um adentrar seu próprio portal e deleitar-se no loop eterno da sublime singularidade de ser. E se meu devaneio não foi o suficiente pra te convencer, acredito que Tim te convença".  (facebook, 7/out, clique aqui para ler na íntegra). 
Dessa forma, tomei a ideia de Tiago pra mim. Talvez a minha peculiaridade estaria bem mais perto e intrínseca do que imaginara. Talvez seja falar sobre livros, seja cantar músicas fora do tom, seja aprender biologia, seja obrigar meus amigos a lerem livros incríveis ou passar horas em livrarias. Poderia ser dominar fogo, água, ar? Cuspir fogo, ser invisível e ter vespas na minha boca? Seria bem legal também. Mas escolher uma seria muito complicado.

Por isso, penso que a peculiaridade é a pluralidade de ser você mesmo. É ser intenso e portar diversos poderes que mudam o dia das pessoas - é ser dentro e fora da imaginação de Tim Burton. É conquistar o mundo com seu jeito e aceitar-se que isso te leva a verdadeira felicidade - mesmo com todos os perigos, fugas, problemas e acólitos diários. São justamente esses desafios que nos mostram que temos um pedaço peculiar dentro de nós. 

Seja peculiar - aonde for.

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12 de outubro de 2016

O PROCESSO CRIATIVO DE RANSON RIGGS

A fotografia presente nos livros da série me chamaram bastante atenção: pela singularidade, pelo encaixe tão perfeito na trama e pela importância que ela toma. As imagens, descritas pelos personagens e com pessoas reais, colocam o leitor para imaginar e se surpreender com o mundo da Srta. Peregrine.


Não se tornam imagens computadorizadas - mas autênticas que com um toque de imaginação, viraram genialidade nas mãos de Ranson. Cidade de Etéreos, volume dois lançado pela Intrínseca, possui uma entrevista exclusiva com o autor, estilo Questions&Answers, para relatar um pouco mais do processo criativo do criador das crianças peculiares. E após a leitura, só aumentou minha admiração pela obra e felicidade em ver uma literatura tão inovadora e incrível.

O primeiro fato a se relatar é que: primeiro vieram as imagens, depois a criação do enredo. 
"Eu comecei o primeiro livro sem ter muita noção do que ia escrever: tinha uma pilha de fotografias estranhas, mas nada concreto e definitivo" (Ranson, Cidade dos Etéreos, q.1)
Dessa forma, as fotos estranhas e antigas acabavam adquirindo um tom direcional da história que se modificava constantemente na cabeça dele. E além disso, me surpreendeu pela capacidade de gerar fantasia com tão pouco. Como uma foto de um cachorro poderia gerar um dos personagens mais épicos da história?



E por mais inacreditável que parecesse, gerou. Cada peculiar tem uma imagem própria no início do segundo livro, junto com sua peculiaridade descrita, como forma de lembrar ao leitor a feição e sombriedade que antes só era possível na cabeça de Riggs. Já nesse segundo, o quadro inverteu-se: 
"Já em Cidades dos etéreos, grande parte já estava em andamento, e as fotos acabaram assumindo um papel mais secundário. Em vez de escrever uma cena baseada em uma imagem, eu saia à procura da fotografia perfeita para uma cena que precisava entrar no livro" (Ranson, Cidade dos Etéreos, q.1)
E a partir de agora, a procura pelas fotos perfeitas era incessante. Renomados fotógrafos, arquivos de décadas passadas, fotos singelas e significativas. Definitivamente, não foi uma tarefa fácil - mas que abrilhantou, cada vez mais, a perspectiva dessa história.

Coletei algumas imagens aleatórias para não gerar spoilers, pessoal! Fiquem tranquilos! ;)

As imagens trouxeram a Riggs o casamento perfeito entre talento e genialidade. E esse seria mais um motivo para ler essa história que ultrapassa o significado de peculiar.

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